sábado, 27 de julho de 2019


A vida de quem resenha livros não é a das mais fáceis, e talvez seja por isso que fiquei perplexa quando recebi o convite para resenhar no blog, afinal sou uma leitora como vocês. Alguns dias atrás eu recebi o reconhecimento e a amizade inesperada do autor Igor Martins de Menezes que nos presenteou com O Imortal Kalymor obra literária que eu resenhei recentemente aqui. Depois de muitas conversas eu consegui uma entrevista para o nosso blog super exclusiva e que fala um pouco sobre o autor, sua obra e as dificuldades do mercado nacional.
Abaixo esta a entrevista e também algumas considerações minhas.

Você iniciou o livro ainda jovem, qual foi sua (as) inspiração (ões) para criar Hans Kalymor?
Iniciei o livro aos 17 anos, logo no início de minha faculdade, em meados de 1999. Porém, a idéia já vinha desde minha infância. Comecei escrevendo numa agenda, pois computador era bem difícil de ter naquela época. Logo, a agenda ficou pequena, e passei para um caderno, segundo caderno, até que a obra ficou grande demais e me entreguei ao computador. Sempre soube como começaria e como terminaria como passaria a mensagem final do livro, mas todo o restante veio aos poucos, sendo imaginado e introduzido nas páginas. Minha inspiração para a criação do personagem (e da narrativa em si) foram anos de jogos de RPG, e livros como Entrevista com o Vampiro e Senhor dos Anéis. Mas eu queria algo novo, nunca antes contado. Aí foram necessárias algumas adaptações no formato do personagem e do cenário. O principal deles foi fazer o livro em 1° pessoa, de modo que o leitor se sentisse como sendo o personagem, que tivesse as mesmas sensações, conflitos, frustrações, visto através dos olhos do personagem, tornando-o o mais verossímil possível. Outro ponto é o cenário, uma confissão na Catedral Metropolitana de Florianópolis, algo completamente inusitado (Fantasia Medieval em Florianópolis?) e, em meio a tudo isso, contar uma história envolvente, que prendesse o leitor e colocasse, ao mesmo tempo, mensagens sobre amor e religião (sendo estes os temas principais do livro) numa constante discussão entre as crenças do Padre e o mundo relatado de Hans Kalymor!

Na segunda vez que eu li o livro me chamou a atenção sua preocupação com a descrição do cenário, isso é por algum motivo pessoal ou apenas a melhor inserção do leitor? 
"Segunda vez que leu?" Nossa, que bom que gostou! Bem, sem dúvida nenhuma, melhor inserção. Sempre pensei que quanto maior a riqueza de detalhes, mais veracidade seria dada à história. E isso não buscou somente nos cenários, mas na descrição de cada personagem que entra na trama, em vestimentas, até em peso de suas armas, em como manejá-las, indo até a explicação de como são realizadas magias, energia necessária. Busquei uma história o mais emissiva possível.  

Se você pudesse mudaria algo na obra? Pretende sequenciar com um livro bônus:
Tenho um projeto para 12 livros. Mas todos independentes, em histórias isoladas, de modo que o leitor não precise ler livros anteriores para ficar por dentro da história. Mas pretendo, em cada um deles, deixar uma "ponta solta" que posso ligar todos em um último livro, mesmo que sejam livros sobre temas diferentes. Sobre o universo de “O IMORTAL KALYMOR", pretendo fazer uma nova trilogia, baseada em outro personagem. O primeiro livro já está quase na metade, mas muitos detalhes ainda precisam ser adaptados. O que eu mudaria na minha obra? Esta pergunta eu faço ao leitor... O que você mudaria na obra? Esta troca de informações pode ser muito útil para melhorar sempre minha forma de escrita e meu contato com o público. 

Em sua opinião foi difícil o reconhecimento da obra? O mercado nacional é competitivo ou esmagador para jovens autores?
Em minha opinião, o grande problema do mercado editorial brasileiro está na forma como as livrarias e editoras tratam os livros de autores nacionais. E posso afirmar que a simples mudança nisso já ajudaria ou até impediria que as grandes livrarias fechassem muitas de suas lojas, como estamos vendo nos últimos meses. De um lado, o autor nacional, desconhecido, que quer lançar sua obra, na maioria esmagadora das vezes, vai pagar para ter seu livro editado. Sendo esta uma das únicas chances de entrar no mercado. A editora faz uma análise da obra e claro que eles não aceitam qualquer livro, pois a editora não vai publicar algo ruim, que pode diminuir a imagem dela. Mas, por outro lado, mesmo a editora aceitando, ela vai receber do autor, que vai bancar os custos da edição. Assim, a editora já recebeu o dela. Então, o esforço não é assim muito grande por parte das editoras em divulgar a obra, fazer propaganda sobre a obra, pois ela já recebeu o dela, sem custo. O contrário acontece em um livro que tenha algum gasto, quando, por exemplo, uma editora decide lançar uma obra de alguém já conhecido, ou um livro polêmico, ou que tenha comprado os direitos autorais. Se a editora tirou do próprio bolso, é óbvio que ela vai fazer um esforço soberbo para divulgar, pois precisa vender o produto que investiu. Agora, entra a parte das livrarias. Em quase sua totalidade, na entrada, sempre vão ficar mais em evidência os livros que já tenham algum reconhecimento (autor conhecido, polêmico, ou que vai virar filme). E ai o novo autor nacional esbarra em mais um problema, pois não há motivo para uma livraria apostar em um autor desconhecido a ponto de deixar seu livro em evidência. Se você fosse dono de uma grande rede, iria tirar alguns exemplares de uma “ORIGEM”, para dar espaço para "O IMORTAL KALYMOR"? Esta visão fechada, desse desagradável ciclo, torna muito difícil a projeção de um novo autor nacional. E isso (somado a diversos outros fatores) contribuiu para a falência de grandes livrarias. Eu teria uma visão diferente. Pense assim, se você quiser comprar uma “ORIGEM”, você vai entrar numa livraria e vai ver a “ORIGEM” bem na sua frente, pois a livraria fez questão de deixar ali para você ver. Aí você pode comprar, ou entrar na internet e comprar online... E pronto. Agora, se essa mesma livraria deixasse essa “ORIGEM” lá no fundo, escondido, e na frente deixasse um monte de livro de autores desconhecidos, saltando na frente de seus olhos... Você iria pegar folhear, ler algumas folhas, se interessar por um ou dois e, no final compraria desse autor novo desconhecido... E antes de pagar você também compraria o seu exemplar de "ORIGEM"... Você não vai trocar o livro que você quer por outro... Você vai levar os dois. Mas, o que vemos é exatamente o oposto disso. As grandes livrarias brigando umas com outras, deixando os mesmos livros em evidência, tentando vender o mesmo produto. O cliente vai comprar de uma ou de outra, ou de nenhuma e vai comprar na internet. E as editoras já receberam do autor novo, não necessitando investir num produto que já ganharam.   

Soube que está mudando seu gênero literário, o que nós leitores podemos esperar?
O próximo livro já está pronto. Acredito que será lançado ainda este ano, mas não fechei ainda negociação com uma Editora. Estou analisando ainda algumas propostas, sendo uma para lançar, também, em Portugal. Mas já posso antecipar título e sinopse aqui para vocês:

TÍTULO: TUDO AQUILO QUE NÃO VEMOS
SOBRE O LIVRO: ­
"Um grave acidente de­ trânsito leva a jove­m Caroline ao hospita­l. Com o passar dos d­ias, Caroline se apai­xona por um enfermeir­o, porém, ela não sab­e definir se é amor o­u apenas um sentiment­o de afeto, gerado pe­la fragilidade de sua­ situação. Por não sa­ber lidar com as angústias, fru­strações e sentimento­s gerados na internaç­ão, uma senhora, muito­ idosa e debilitada, ­tenta ajudá-la a orga­nizar suas emoções, u­tilizando seus famili­ares como exemplo, co­ntando a história de ­cada um deles. Em cad­a relato, surge uma e­xplicação do que seria o amor, ­ suas mais diversas i­nterpretações e ponto­s de vistas. Até o mo­mento em que a jovem ­se depara com a forma­ mais plena sincera ­e forte de suas manif­estações."

Concorda que se houvesse um maior incentivo governamental e virtual haveria mais destaque no mercado para autores nacionais? 
Não. O incentivo tinha que vir de duas empresas (dono da grande rede de livrarias e dono da editora). É quase que uma lógica matemática aqui o que vou dizer. Se a editora compra direitos autorais de um autor famoso, e ainda gasta para produção, distribuição e divulgação do livro, é claro que ela vai ter que tirar o que investiu e ainda lucrar com a obra. Mas, se ela já recebeu de um autor novo, que pagou pela publicação, todo e qualquer livro que ela vender ela vai ter lucro. Então por que não investir nesse autor? O custo para divulgar, e ascender um autor desconhecido é muito menor (e em minha opinião mais lucrativo) do que investir em alguém já conhecido. Pois, enquanto ela gasta valores exorbitantes para manter em evidência e vender um livro famoso, esta mesma editora deixa de investir em centenas de autores que poderiam se tornar grandes escritores se tivesse suas obras em evidência nas livrarias. E as livrarias deveriam deixar sempre na frente os autores novos... Pois os autores famosos, se o leitor quiser, vão procurar lá no fundo da livraria. 

Sobre a obra, até onde vemos o Igor e até onde vemos Hans?
Esta pergunta é excelente. Acredito que não somente em livros, mas em tudo o que fazemos, deixamos algo de nós, relacionado ao que queremos ao que somos ao que gostamos ou ao que repudiamos. Seja no trabalho, num relacionamento, na composição de uma música, na apresentação de um artista. A imparcialidade não nos permite criar nada. Somos reféns do que fazemos e fazemos justamente por não conseguirmos escapar de nossa obra. Você se incomoda, ou você ama uma cratera lá em Júpiter? Você é imparcial a isso, portanto nunca vai pensar, nem fazer nada contra ou a favor de uma cratera lá. Mas, se você se propõe a escrever um livro, a pintar um quadro, ou ir ao trabalho, sempre vai levar algo de você. E ali foram oito anos escrevendo e uns 20 anos somente imaginando a história. Até onde vemos o Igor e até onde vemos Hans? O Igor está em cada linha daquela obra, pois é fruto do trabalho de uma vida inteira. Hans é um "avatar", que vai guiar o leitor num mundo fantástico, cheio de questionamentos, batalhas, reflexões e busca por crescimento interior. 

Você esperava esse alcance tão grande e bom dos livros? Qual foi sua parte preferida ao escrever a trilogia?
Sempre sonhei em levar este livro para o mais longe possível. Sempre quis que fosse lido por muitas pessoas. E, o mais importante para mim, que fosse comentado e discutido, que não fosse somente uma narrativa de um mundo de fantasia medieval. Saber que o livro está correndo por diversos estados do Brasil é uma alegria muito grande, mas ainda quero levá-lo mais longe. Uma empresa de Florianópolis está desenvolvendo um projeto de uma adaptação para HQ e, posteriormente, uma adaptação em série de animação. O trabalho ainda esta muito no início, por isso não temos ainda muitos detalhes. Vou passar o link aqui para vocês. 
E espero em pouco tempo já ter novidades. Minha parte preferida foi claro, o final, do 3° livro, pois tudo levou àquele momento, onde o propósito e mensagem do livro de fazem presentes. 

Agora uma pergunta bônus hahahahaha, você já jogou RPG? Tem interesse?
Sim (hehehe). Boa parte de minha infância passei com jogos de RPG, sendo o principal deles "GURPS". E jogava muito "MAGIC, THE GATHERING". Com certeza absoluta este fato contribuiu e muito para a imaginação do mundo de "O IMORTAL KALYMOR". 


Bom podemos observar que não é fácil a publicação de livros em sua esfera nacional e também que muitos bons projetos se perdem por causa desse empecilho, quantas boas historias e autores perdemos por isso? O que podemos fazer para mudar é procurar dar mais destaque aquilo que é nosso por natureza. Vamos ler mais livros nacionais e prestigiar nossos autores como fazemos com tantos outros.

Ella Ferreira


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