A vida de quem resenha
livros não é a das mais fáceis, e talvez seja por isso que fiquei perplexa
quando recebi o convite para resenhar no blog, afinal sou uma leitora como
vocês. Alguns dias atrás eu recebi o reconhecimento e a amizade inesperada do
autor Igor Martins de Menezes que nos presenteou com O Imortal Kalymor obra literária
que eu resenhei recentemente aqui. Depois de muitas conversas eu consegui uma
entrevista para o nosso blog super exclusiva e que fala um pouco sobre o autor,
sua obra e as dificuldades do mercado nacional.
Abaixo esta a entrevista e também
algumas considerações minhas.
Você iniciou o livro ainda jovem,
qual foi sua (as) inspiração (ões) para criar Hans Kalymor?
Iniciei o livro aos 17
anos, logo no início de minha faculdade, em meados de 1999. Porém, a idéia já
vinha desde minha infância. Comecei escrevendo numa agenda, pois computador era
bem difícil de ter naquela época. Logo, a agenda ficou pequena, e passei para
um caderno, segundo caderno, até que a obra ficou grande demais e me entreguei
ao computador. Sempre soube como começaria e como terminaria como passaria a
mensagem final do livro, mas todo o restante veio aos poucos, sendo imaginado e
introduzido nas páginas. Minha inspiração para a criação do personagem (e da
narrativa em si) foram anos de jogos de RPG, e livros como Entrevista com o
Vampiro e Senhor dos Anéis. Mas eu queria algo novo, nunca antes contado. Aí
foram necessárias algumas adaptações no formato do personagem e do cenário. O
principal deles foi fazer o livro em 1° pessoa, de modo que o leitor se
sentisse como sendo o personagem, que tivesse as mesmas sensações, conflitos,
frustrações, visto através dos olhos do personagem, tornando-o o mais
verossímil possível. Outro ponto é o cenário, uma confissão na Catedral
Metropolitana de Florianópolis, algo completamente inusitado (Fantasia Medieval
em Florianópolis?) e, em meio a tudo isso, contar uma história envolvente, que
prendesse o leitor e colocasse, ao mesmo tempo, mensagens sobre amor e religião
(sendo estes os temas principais do livro) numa constante discussão entre as
crenças do Padre e o mundo relatado de Hans Kalymor!
Na segunda vez que eu li o livro me
chamou a atenção sua preocupação com a descrição do cenário, isso é por algum
motivo pessoal ou apenas a melhor inserção do leitor?
"Segunda vez que
leu?" Nossa, que bom que gostou! Bem, sem dúvida nenhuma, melhor inserção.
Sempre pensei que quanto maior a riqueza de detalhes, mais veracidade seria
dada à história. E isso não buscou somente nos cenários, mas na descrição de
cada personagem que entra na trama, em vestimentas, até em peso de suas armas,
em como manejá-las, indo até a explicação de como são realizadas magias, energia
necessária. Busquei uma história o mais emissiva possível.
Se você pudesse mudaria algo na obra?
Pretende sequenciar com um livro bônus:
Tenho um projeto para 12
livros. Mas todos independentes, em histórias isoladas, de modo que o leitor
não precise ler livros anteriores para ficar por dentro da história. Mas
pretendo, em cada um deles, deixar uma "ponta solta" que posso ligar
todos em um último livro, mesmo que sejam livros sobre temas diferentes. Sobre
o universo de “O IMORTAL KALYMOR", pretendo fazer uma nova trilogia,
baseada em outro personagem. O primeiro livro já está quase na metade, mas
muitos detalhes ainda precisam ser adaptados. O que eu mudaria na minha obra?
Esta pergunta eu faço ao leitor... O que você mudaria na obra? Esta troca de
informações pode ser muito útil para melhorar sempre minha forma de escrita e
meu contato com o público.
Em sua opinião foi difícil o
reconhecimento da obra? O mercado nacional é competitivo ou esmagador para
jovens autores?
Em minha opinião, o grande
problema do mercado editorial brasileiro está na forma como as livrarias e
editoras tratam os livros de autores nacionais. E posso afirmar que a simples
mudança nisso já ajudaria ou até impediria que as grandes livrarias fechassem
muitas de suas lojas, como estamos vendo nos últimos meses. De um lado, o autor
nacional, desconhecido, que quer lançar sua obra, na maioria esmagadora das
vezes, vai pagar para ter seu livro editado. Sendo esta uma das únicas chances
de entrar no mercado. A editora faz uma análise da obra e claro que eles não
aceitam qualquer livro, pois a editora não vai publicar algo ruim, que pode
diminuir a imagem dela. Mas, por outro lado, mesmo a editora aceitando, ela vai
receber do autor, que vai bancar os custos da edição. Assim, a editora já
recebeu o dela. Então, o esforço não é assim muito grande por parte das
editoras em divulgar a obra, fazer propaganda sobre a obra, pois ela já recebeu
o dela, sem custo. O contrário acontece em um livro que tenha algum gasto,
quando, por exemplo, uma editora decide lançar uma obra de alguém já conhecido,
ou um livro polêmico, ou que tenha comprado os direitos autorais. Se a editora
tirou do próprio bolso, é óbvio que ela vai fazer um esforço soberbo para
divulgar, pois precisa vender o produto que investiu. Agora, entra a parte das
livrarias. Em quase sua totalidade, na entrada, sempre vão ficar mais em
evidência os livros que já tenham algum reconhecimento (autor conhecido,
polêmico, ou que vai virar filme). E ai o novo autor nacional esbarra em mais
um problema, pois não há motivo para uma livraria apostar em um autor
desconhecido a ponto de deixar seu livro em evidência. Se você fosse dono de
uma grande rede, iria tirar alguns exemplares de uma “ORIGEM”, para dar espaço
para "O IMORTAL KALYMOR"? Esta visão fechada, desse desagradável
ciclo, torna muito difícil a projeção de um novo autor nacional. E isso (somado
a diversos outros fatores) contribuiu para a falência de grandes livrarias. Eu
teria uma visão diferente. Pense assim, se você quiser comprar uma “ORIGEM”,
você vai entrar numa livraria e vai ver a “ORIGEM” bem na sua frente, pois a
livraria fez questão de deixar ali para você ver. Aí você pode comprar, ou
entrar na internet e comprar online... E pronto. Agora, se essa mesma livraria
deixasse essa “ORIGEM” lá no fundo, escondido, e na frente deixasse um monte de
livro de autores desconhecidos, saltando na frente de seus olhos... Você iria pegar
folhear, ler algumas folhas, se interessar por um ou dois e, no final compraria
desse autor novo desconhecido... E antes de pagar você também compraria o seu
exemplar de "ORIGEM"... Você não vai trocar o livro que você quer por
outro... Você vai levar os dois. Mas, o que vemos é exatamente o oposto disso.
As grandes livrarias brigando umas com outras, deixando os mesmos livros em
evidência, tentando vender o mesmo produto. O cliente vai comprar de uma ou de
outra, ou de nenhuma e vai comprar na internet. E as editoras já receberam do
autor novo, não necessitando investir num produto que já ganharam.
Soube que está mudando seu gênero
literário, o que nós leitores podemos esperar?
O próximo livro já está
pronto. Acredito que será lançado ainda este ano, mas não fechei ainda
negociação com uma Editora. Estou analisando ainda algumas propostas, sendo uma
para lançar, também, em Portugal. Mas já posso antecipar título e sinopse aqui
para vocês:
TÍTULO:
TUDO AQUILO QUE NÃO VEMOS
SOBRE O LIVRO:
"Um grave acidente de trânsito leva a jovem Caroline
ao hospital. Com o passar dos dias, Caroline se apaixona por um enfermeiro,
porém, ela não sabe definir se é amor ou apenas um sentimento de afeto,
gerado pela fragilidade de sua situação. Por não saber lidar com as
angústias, frustrações e sentimentos gerados na internação, uma senhora,
muito idosa e debilitada, tenta ajudá-la a organizar suas emoções, utilizando
seus familiares como exemplo, contando a história de cada um deles. Em cada
relato, surge uma explicação do que seria o amor, suas mais diversas interpretações e
pontos de vistas. Até o momento em que a jovem se depara com a forma mais plena
sincera e forte de suas manifestações."
Concorda que se houvesse um maior
incentivo governamental e virtual haveria mais destaque no mercado para autores
nacionais?
Não. O incentivo tinha
que vir de duas empresas (dono da grande rede de livrarias e dono da editora).
É quase que uma lógica matemática aqui o que vou dizer. Se a editora compra
direitos autorais de um autor famoso, e ainda gasta para produção, distribuição
e divulgação do livro, é claro que ela vai ter que tirar o que investiu e ainda
lucrar com a obra. Mas, se ela já recebeu de um autor novo, que pagou pela
publicação, todo e qualquer livro que ela vender ela vai ter lucro. Então por
que não investir nesse autor? O custo para divulgar, e ascender um autor
desconhecido é muito menor (e em minha opinião mais lucrativo) do que investir
em alguém já conhecido. Pois, enquanto ela gasta valores exorbitantes para
manter em evidência e vender um livro famoso, esta mesma editora deixa de
investir em centenas de autores que poderiam se tornar grandes escritores se tivesse
suas obras em evidência nas livrarias. E as livrarias deveriam deixar sempre na
frente os autores novos... Pois os autores famosos, se o leitor quiser, vão
procurar lá no fundo da livraria.
Sobre a obra, até onde vemos o Igor e
até onde vemos Hans?
Esta pergunta é
excelente. Acredito que não somente em livros, mas em tudo o que fazemos,
deixamos algo de nós, relacionado ao que queremos ao que somos ao que gostamos
ou ao que repudiamos. Seja no trabalho, num relacionamento, na composição de
uma música, na apresentação de um artista. A imparcialidade não nos permite
criar nada. Somos reféns do que fazemos e fazemos justamente por não
conseguirmos escapar de nossa obra. Você se incomoda, ou você ama uma cratera
lá em Júpiter? Você é imparcial a isso, portanto nunca vai pensar, nem fazer
nada contra ou a favor de uma cratera lá. Mas, se você se propõe a escrever um
livro, a pintar um quadro, ou ir ao trabalho, sempre vai levar algo de você. E
ali foram oito anos escrevendo e uns 20 anos somente imaginando a história. Até
onde vemos o Igor e até onde vemos Hans? O Igor está em cada linha daquela
obra, pois é fruto do trabalho de uma vida inteira. Hans é um
"avatar", que vai guiar o leitor num mundo fantástico, cheio de
questionamentos, batalhas, reflexões e busca por crescimento interior.
Você esperava esse alcance tão grande
e bom dos livros? Qual foi sua parte preferida ao escrever a trilogia?
Sempre sonhei em levar
este livro para o mais longe possível. Sempre quis que fosse lido por muitas
pessoas. E, o mais importante para mim, que fosse comentado e discutido, que
não fosse somente uma narrativa de um mundo de fantasia medieval. Saber que o
livro está correndo por diversos estados do Brasil é uma alegria muito grande,
mas ainda quero levá-lo mais longe. Uma empresa de Florianópolis está desenvolvendo
um projeto de uma adaptação para HQ e, posteriormente, uma adaptação em série
de animação. O trabalho ainda esta muito no início, por isso não temos ainda
muitos detalhes. Vou passar o link aqui para vocês.
E espero em pouco tempo
já ter novidades. Minha parte preferida foi claro, o final, do 3° livro, pois
tudo levou àquele momento, onde o propósito e mensagem do livro de fazem
presentes.
Agora
uma pergunta bônus hahahahaha, você já jogou RPG? Tem interesse?
Sim
(hehehe). Boa parte de minha infância passei com jogos de RPG, sendo o
principal deles "GURPS". E jogava muito "MAGIC, THE
GATHERING". Com certeza absoluta este fato contribuiu e muito para a
imaginação do mundo de "O IMORTAL KALYMOR".
Bom podemos observar que
não é fácil a publicação de livros em sua esfera nacional e também que muitos
bons projetos se perdem por causa desse empecilho, quantas boas historias e
autores perdemos por isso? O que podemos fazer para mudar é procurar dar mais
destaque aquilo que é nosso por natureza. Vamos ler mais livros nacionais e
prestigiar nossos autores como fazemos com tantos outros.
Ella Ferreira

Nenhum comentário:
Postar um comentário