terça-feira, 30 de março de 2021

O Voyeur

Já pensou receber uma carta com descrições íntimas de hospedes de um hotel? Agora imagina isso acontecendo na década de 80. E claro, essa história foi direcionada ao premiadíssimo jornalista Gay Talese, que levou 35 anos para divulgá-la. Quem conhece o trabalho de Talese, sabe que ele é um jornalista que escreve histórias verídicas em crônicas semelhantes a ficção, mas que faz questão de usar nomes reais e sempre ambientaliza a época e local, para que seus leitores tenham referências suficientes para, ao buscarem na internet, encontrarem dados reais. Por este motivo, Talese demorou para publicar o livro, pois além de estar envolvido com outra produção, precisava de autorização do "pesquisador social", como o voyeur se autodenomina, para usar seu nome verdadeiro e do hotel, autorização essa que veio tardiamente.

Tudo começou quando Gerald Foos resolveu enviar para Talese suas anotações sobre a vida íntima de seus hospedes. Talese, não acreditando na veracidade do que recebera, aceitou o convite de Foos para conhecer seu hotel e a engenhosa estrutura que ele mesmo projetara minunciosamente para espionar suas cobaias. Foos gostava de se referir a esse ato de voyeurismo como pesquisa social. Ele acreditava que, além de admitir e aceitar uma característica masculina que é o voyeurismo, fazia um bem em observar privilegiadamente os hábitos e atitudes de pessoas e famílias na sua intimidade com 100% de aproveitamento, já que as pessoas nem desconfiavam que eram observadas. Foos acreditava que sua amostra da pesquisa seria a mais perfeita da história.

Apesar de ter realmente muitas observações e relatórios interessantes sobre o comportamento humano, o livro em si se arrasta muito, é como se estivéssemos ouvindo aquela nossa amiga que termina e volta com o mesmo namorado todo final de semana. É exaustivo, não pela escrita do autor, mas por se tratar de um ciclo comum de observar secretamente, ver que as pessoas só são pessoas como nós, ou seja, nada do que elas fazem lá foge do que nós mesmos fazemos quando viajamos. Enfim, não tem nada de muito novo. Até quando Foos diz ter presenciado um crime, não é um ápice na história.

Confesso que arrastei a leitura por uns cinco meses, e eu achei que devoraria em trinta dias no máximo. Meu namorado disse que gostou da premissa excêntrica e bizarra do livro, pois além de ser sobre algo inusitado que envolve a observação do ato sexual alheio, é sobre um tema que envolve um tipo de observação e percepção que ele não está acostumado: voyeurismo. No geral, ele concordou comigo no que diz respeito a repetitividade, e isso quebrou um pouco da expectativa dele sobre o livro, pois em certos momentos se tornava algo monótono. No mais, ele constatou que foi um livro interessante para tirá-lo da “zona de conforto” de temas usuais os quais ele procuraria para ler, e que foi uma ótima experiência lê-lo comigo. Para mim e meu namorado o ponto alto do livro foi posfácio, onde há uma entrevista com o Talese e nela a gente só se interessou mais por ele.

Curiosidades:

- Gay Talese tem, em seu bunker, arquivos de todos os livros que ele escreveu e que pretende escrever, tudo que ele traz nas obras dele podem ser provadas com recortes, gravações e fotos. - Foos pediu para que Talese não mencionasse o nome real dele e nem de suas esposas que o ajudaram nessa peripécia. Por isso, ele demorou a publicar. Ele não publica nada que não possa evidenciar.

Para a história do livro, damos 2 estrelas e meia e, para o posfácio, 5.

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