Bem, posso dizer que a iniciativa de ler a obra - Claraboia, de José Saramago - partiu das duas paixões da minha vida: os livros e a Antropologia.
Então vamos por partes. Ganhei-o na brincadeira de amigo secreto de 2011 de um grupo especial, na verdade, o verbo ganhar não se aplica exatamente, eu exigi, não foi um presente espontâneo. Como adoro ganhar livros, coloquei na lista de sugestões e solicitei com justificativas que fosse do Saramago (aos poucos vou listando algumas patologias saudáveis que possuo, como a obsessão por temas, assuntos, obras e escritores que gosto) e, naquele momento, estava na liga do "portuga". Guardei e esperei o momento de começa-lo: a minha viagem de campo.
O ofício de antropólogo (em formação, já que o trabalho de campo irá compor meu trabalho de conclusão de curso) nos exige tal entrega que não há separação entre vida pessoal e profissional. Nesse trabalho de campo permaneci, convivi e labutei durante um mês com uma família de ribeirinhos, nesse momento, nem se eu quisesse, não seria possível descrever todas as vivências, experiências e descobertas durante esse mês. Mas posso dizer que Claraboia foi a minha redenção em muitos momentos.
Seja pela ficção ou pela vida real, uma lição permaneceu: a vida (também!) é uma arte de conviver.
Saramago, em sua maestria, leva-nos a uma viagem pelo cotidiano de diferentes personagens, cenas, quartos e cozinhas de um prédio domiciliar da Lisboa dos anos 50. Tinha o moço Abel, em eterna busca pelo sentido da vida, e a sua amizade com o velho Silvestre em diálogos precisos. A sonhadora Cláudia, moça de família com um cinismo que a levará onde deseja. Solteironas que desistiram de cumprir as convenções sociais e gastam seus dias no prazer que resta: os livros e nas músicas de Bethoven.
Ainda que em determinados momentos eu tivesse que mergulhar na vida dos outros (acompanhava-os na coleta de açaí, nos trabalhos de roçado e de tudo tinha que tomar nota e analisar antropologicamente), eu sentia a minha vida suspensa. E na tentativa de vivê-la eu buscava a vida das personagens, pois assim tentava satisfazer meus desejos urbanóides através da leitura. Foi extremamente difícil lidar com a saudade, e mesmo que você seja acolhido com todo o carinho, você sempre acha que deixou alguma coisa pra trás, e eu sentia que era a minha vida.
Então, quando eu me presenteava com esse momento, atava uma rede no trapiche, me fechava no meu mundo e quando emergia para o real era isso que eu via:
![]() |
| Foto: Sammy Sales |

Nenhum comentário:
Postar um comentário