quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Claraboia e a vida dos outros

Bem, posso dizer que a iniciativa de ler a obra - Claraboia, de José Saramago - partiu das duas paixões da minha vida: os livros e a Antropologia.

Então vamos por partes. Ganhei-o na brincadeira de amigo secreto de 2011 de um grupo especial, na verdade, o verbo ganhar não se aplica exatamente, eu exigi, não foi um presente espontâneo. Como adoro ganhar livros, coloquei na lista de sugestões e solicitei com justificativas que fosse do Saramago (aos poucos vou listando algumas patologias saudáveis que possuo, como a obsessão por temas, assuntos, obras e escritores que gosto) e, naquele momento, estava na liga do "portuga". Guardei e esperei o momento de começa-lo: a minha viagem de campo.

O ofício de antropólogo (em formação, já que o trabalho de campo irá compor meu trabalho de conclusão de curso) nos exige tal entrega que não há separação entre vida pessoal e profissional. Nesse trabalho de campo permaneci, convivi e labutei durante um mês com uma família de ribeirinhos, nesse momento, nem se eu quisesse, não seria possível descrever todas as vivências, experiências e descobertas durante esse mês. Mas posso dizer que Claraboia foi a minha redenção em muitos momentos.

Seja pela ficção ou pela vida real, uma lição permaneceu: a vida (também!) é uma arte de conviver.

Saramago, em sua maestria, leva-nos a uma viagem pelo cotidiano de diferentes personagens, cenas, quartos e cozinhas de um prédio domiciliar da Lisboa dos anos 50. Tinha o moço Abel, em eterna busca pelo sentido da vida, e a sua amizade com o velho Silvestre em diálogos precisos. A sonhadora Cláudia, moça de família com um cinismo que a levará onde deseja. Solteironas que desistiram de cumprir as convenções sociais e gastam seus dias no prazer que resta: os livros e nas músicas de Bethoven.

Ainda que em determinados momentos eu tivesse que mergulhar na vida dos outros (acompanhava-os na coleta de açaí, nos trabalhos de roçado e de tudo tinha que tomar nota e analisar antropologicamente), eu sentia a minha vida suspensa. E na tentativa de vivê-la eu buscava a vida das personagens, pois assim tentava satisfazer meus desejos urbanóides através da leitura. Foi extremamente difícil lidar com a saudade, e mesmo que você seja acolhido com todo o carinho, você sempre acha que deixou alguma coisa pra trás, e eu sentia que era a minha vida.

Então, quando eu me presenteava com esse momento, atava uma rede no trapiche, me fechava no meu mundo e quando emergia para o real era isso que eu via:

Foto: Sammy Sales
O entremeado de tramas de vidas que Saramago teceu em sua obra me deixavam livre pra correr de uma ponte a outra nas sensações da vida daquelas pessoas que eu observava. Na arte de conviver você tem que criar moedas de troca para ser aceito, para circular em espaços que não são seus naturalmente e, portanto, que você não domina. Segurar choro, evitar palavras ácidas, calar-se, ouvir o outro são ações necessárias quando você não quer ser o foco das observações, por temor de deixar de ser observador para tornar-se o observado.

Nenhum comentário:

Postar um comentário